Quando ouvi falar de
O Doce Veneno do Escorpião, eu achava que encontraria apenas um livro cheio de relatos picantes e polêmicos. Afinal, a fama da
Bruna Surfistinha sempre esteve ligada ao blog que explodiu na internet entre 2004 e 2011, chegando a receber cerca de 15 mil visitas por dia. E o “segredo” do sucesso era justamente os relatos detalhados dos programas que ela fazia com homens, mulheres e casais em seu flat.
E sim… o livro tem cenas bem explícitas. Algumas até chocam pela quantidade. Teve momentos em que eu parei pra pensar: “Meu Deus, como alguém consegue viver assim?”. Segundo ela, chegavam a ser até seis programas por dia.😳 Dá pra imaginar o desgaste físico e emocional? Pois mesmo ela dizendo que gostava de se sentir desejada por pessoas variadas o peso e o vazio no final do dia deve bater forte, não é a toa que algumas garotas de programa apelam para as drogas para aguentar tantos programas.
Mas o que mais me surpreendeu foi perceber que, por trás da personagem “Bruna Surfistinha”, existia a Raquel Pacheco. E foi justamente essa parte mais humana da história que mais me chamou a atenção.
Raquel era uma menina de classe média alta, estudou em bons colégios, tinha acesso a
muitas oportunidades… mas parecia carregar um vazio enorme dentro dela. Ela fala sobre inseguranças com o próprio corpo, episódios de bulimia, uso de antidepressivos e uma necessidade constante de se sentir aceita e desejada. A impressão que tive é que a Bruna acabou se tornando uma espécie de personagem criada para preencher dores que a Raquel não sabia lidar.
Ela começou a beber e fumar muito cedo, entrou no mundo das drogas e acabou tendo vários comportamentos destrutivos. Em alguns momentos do livro, fiquei até irritada com certas atitudes dela, principalmente quando ela mesma admite que fazia coisas só para não parecer “careta” para os outros. Isso, pra mim, mostrou uma falta enorme de personalidade e também uma carência absurda de pertencimento.
“Nunca mais minha mãe conversou comigo. Não sentiria nada se meu pai nunca mais olhasse na minha cara. Mas nunca mais ouvir ‘minha filha’ na voz acolhedora da minha mãe talvez seja o mais perto da solidão da morte que já cheguei.”
Mas a parte que mais me revoltou foi a relação dela com os pais.
Quando descobriram os roubos dentro de casa, a reação do pai foi extremamente agressiva. Segundo ela, apanhou várias vezes, e em um momento chegou a implorar para que ele parasse ou simplesmente a matasse logo. Foi impossível ler isso sem sentir um aperto no peito.
Depois disso, o silêncio dentro da própria casa parece ter machucado ainda mais. Os pais passaram a ignorá-la completamente, mesmo morando sob o mesmo teto. E, sinceramente? Eu entendo a dor, a decepção e o desespero deles diante de tudo o que estava acontecendo… mas não consegui deixar de pensar que aquilo só afastou ainda mais a filha.
Faltou diálogo. Faltou alguém perguntar: “o que está acontecendo com você?”.
Talvez isso não mudasse porra nenhum. Talvez mudasse muita coisa, mas uma coisa ficaria clara, eles se importavam de verdade com ela. E sinseramente acho que foi esse silencio que a fez ter certeza da partida.
Comprei esse livro lá em 2011, na época do lançamento do filme Bruna Surfistinha, e só fui ler agora em 2026.
Achei que encontraria algo parecido com romances hot ou dark romances que vemos hoje em dia, mas me enganei bastante. Apesar dos relatos sexuais serem parte importante da obra, o livro também mostra dores emocionais, traumas, carência afetiva e a busca desesperada por validação.
A leitura é extremamente fluida. Eu, que sou lenta para ler, terminei em 4 ou 5 dias. E acho que esse foi um dos pontos que mais me surpreenderam.
No geral, gostei da experiência. Não porque concordei com tudo — muito pelo contrário — mas porque foi um livro que furou minha bolha e me fez refletir bastante sobre abandono emocional, autoestima, excessos e escolhas.
E você? Já leu O Doce Veneno do Escorpião?
O que achou da leitura? Me conta nos comentários. 💬📚
Título: O doce veneno do escorpião
Autor(a): Bruna Surfistinha (Raquel Pacheco)
Editora: Panda Books
Ano: 2005
Páginas: 172
⭐⭐⭐⭐ Nota: 4/5